Cristãos palestinos deixam a Cisjordânia

Cristãos palestinos deixam a Cisjordânia em meio à violência e às dificuldades
Ataques, postos de controle, crise econômica e falta de segurança ameaçam a permanência de comunidades cristãs históricas na Terra Santa.
A presença cristã na Cisjordânia enfrenta uma nova onda de insegurança. Desde o início da guerra em Gaza, em outubro de 2023, moradores relatam aumento da violência, restrições de circulação, ataques de colonos e agravamento das dificuldades econômicas.
Essas condições estão levando famílias cristãs a deixar cidades e vilarejos onde viveram durante gerações. Em Taybeh, considerada a última localidade inteiramente cristã da Cisjordânia, líderes religiosos alertam que a continuidade da comunidade está ameaçada por ataques, perda de população e falta de oportunidades.
Uma comunidade cada vez menor
A população cristã palestina representa hoje uma pequena parcela dos habitantes da Cisjordânia. Estimativas citadas por líderes e pesquisadores indicam que entre 40 mil e 45 mil cristãos permanecem na região, pouco mais de 1% da população. Em 1967, eles representavam aproximadamente 6%.
Na Faixa de Gaza, a situação é ainda mais grave. Apenas cerca de 600 cristãos permanecem no território devastado pela guerra, segundo os números apresentados na reportagem que deu origem a esta matéria.
O pastor e teólogo palestino Mitri Raheb afirmou que mais de 200 famílias cristãs deixaram a Cisjordânia desde o início da guerra. Ele também advertiu que, se as condições atuais continuarem, poderá não haver cristãos palestinos na região até 2050.
Essa declaração deve ser entendida como um alerta sobre a velocidade do êxodo, e não como uma previsão estatística inevitável.
Que cristianismo é praticado na Palestina?
Os cristãos palestinos não pertencem a uma única denominação. A comunidade inclui cristãos ortodoxos gregos, católicos (tanto da Igreja Latina quanto de igrejas católicas orientais), ortodoxos sírios e armênios, anglicanos, luteranos, presbiterianos e outros grupos protestantes.
Apesar das diferenças litúrgicas e históricas, essas igrejas compartilham os fundamentos centrais da fé cristã: a crença em um único Deus, na Trindade (Pai, Filho e Espírito Santo), em Jesus Cristo como Senhor e Messias, em sua morte e ressurreição e na esperança da vida eterna.
A vida cristã palestina é marcada pela oração comunitária, pelo batismo, pela celebração da Eucaristia ou da Santa Ceia e pelas festas do calendário cristão. Belém, Jerusalém, Nazaré e outras cidades da região ocupam lugar central na memória cristã por sua relação com os acontecimentos narrados nos Evangelhos.
Essa fé também se expressa por meio do serviço à sociedade. Igrejas cristãs mantêm escolas, hospitais, centros sociais e instituições de assistência que atendem cristãos e muçulmanos. Essas organizações exercem um papel importante na educação, na saúde e no apoio às famílias palestinas.
Por isso, a saída dos cristãos palestinos não representa apenas a diminuição de um grupo religioso. Ela ameaça a continuidade de comunidades que preservam igrejas, tradições litúrgicas, escolas, famílias e formas de viver a fé cristã na própria Terra Santa.
Violência e postos de controle
Os ataques de colonos contra palestinos se tornaram uma preocupação constante em diferentes áreas da Cisjordânia. Relatórios humanitários registraram incidentes em localidades próximas a Ramallah, Nablus e Jerusalém, incluindo ataques repetidos contra algumas comunidades.
Além da violência, os postos de controle militares dificultam o deslocamento entre cidades e vilarejos. Taybeh fica a aproximadamente 12 quilômetros de Ramallah, mas o trajeto pode levar cerca de uma hora devido às barreiras e inspeções.
Para os moradores, essas restrições afetam o acesso ao trabalho, à educação, aos serviços médicos e às atividades comerciais. O turismo, que durante muito tempo ajudou a sustentar várias comunidades cristãs, também foi severamente prejudicado.
O problema não é apenas a duração da viagem. A imprevisibilidade dos bloqueios e a sensação de insegurança tornam mais difícil planejar a vida cotidiana, manter negócios e incentivar os jovens a permanecerem na região.
O caso de Taybeh
Taybeh é uma pequena comunidade cristã situada na Cisjordânia. O local possui igrejas históricas e uma população que procura preservar sua identidade cristã em meio a um cenário de crescente instabilidade.
Segundo o padre Bashar Fawadleh, pároco da Igreja Latina local, mais de 15 famílias deixaram Taybeh desde 2023. A população, que chegava a aproximadamente 3 mil pessoas na década de 1980, hoje estaria em torno de 1.200 habitantes.
O sacerdote aponta dois fatores principais para o êxodo: a falta de segurança causada pelos ataques e a dificuldade econômica. Sem estabilidade, muitos jovens não veem condições para construir uma vida na própria cidade.
A situação de Taybeh foi descrita por representantes da Igreja como uma ameaça sem precedentes à terra, à população e à presença cristã histórica da comunidade.
Por que tantas famílias consideram emigrar?
A emigração não é uma opção igualmente acessível para todos. Os cristãos palestinos frequentemente possuem familiares em países como Estados Unidos, Canadá, Austrália e nações da América Latina. Essas redes familiares facilitam a busca por moradia, emprego e apoio no exterior.
Varsen Aghabekian Shahin, ministra das Relações Exteriores da Palestina e cristã armênia, afirmou que o declínio da população cristã deveria servir como um sério alerta para o mundo cristão.
Khalil Shikaki, diretor do Centro Palestino para Pesquisa de Políticas e Estudos, observou que uma pesquisa realizada em 2020 indicava que o desejo de emigrar era duas vezes maior entre cristãos do que entre muçulmanos na Cisjordânia. Desde então, as condições de segurança e economia se deterioraram ainda mais.
Issa Qassis, um empresário de 31 anos de Ramallah, afirmou que considera deixar a região e se mudar para os Estados Unidos. Ele descreveu a dificuldade de avançar profissionalmente em um ambiente no qual cada conquista parece ser acompanhada por novos obstáculos.
Um apelo à Igreja
Líderes cristãos palestinos têm pedido ações internacionais para proteger os civis, garantir a liberdade de circulação e criar condições para que as famílias possam permanecer em suas cidades.
A resposta da Igreja não deve se limitar a disputas políticas. Ela também envolve oração, solidariedade, informação responsável e apoio às instituições que servem as comunidades locais.
As palavras da carta aos Hebreus permanecem relevantes:
- “Lembrai-vos dos presos, como se estivésseis presos com eles; e dos maltratados, como sendo vós mesmos também do corpo.”
- Hebreus 13:3
A crise dos cristãos palestinos exige que o mundo cristão não olhe para a Terra Santa apenas como um lugar de peregrinação ou como cenário das narrativas bíblicas. A região também é o lar de pessoas reais que continuam trabalhando, orando, educando seus filhos e tentando preservar sua fé em meio à violência e à incerteza.
Se essas comunidades desaparecerem, o mundo não perderá apenas uma parcela da população. Perderá também uma expressão viva, diversa e histórica do cristianismo no Oriente.
Fontes - A strategy ‘to make life intolerable': Israeli settlers are driving Christians out of West Bank https://www.theguardian.com/world/2026/apr/05/israeli-settlers-driving-christians-out-west-bank - Cisjordânia, o pároco de Taybeh: “Preservar a presença cristã” https://www.vaticannews.va/pt/mundo/news/2026-07/cisjordania-paroco-de-taybeh-preservar-presenca-crista-palestina.html - Conflito entre Israel e palestinos: minoria cristã relata como enfrenta disputa 'na terra de Cristo' - BBC News Brasil https://www.bbc.com/portuguese/internacional-57143976 - Estudo revela o importante papel das instituições cristãs na sociedade palestina - Vatican News https://www.vaticannews.va/pt/igreja/news/2021-03/papel-instituicoes-cristas-sociedade-palestina.html
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