Livro deuterocanônico, presente no cânon católico e ortodoxo, mas excluído do cânon protestante e judaico. Narra a história de Judite, uma viúva judia que salva sua cidade sitiada pelos assírios.
Judite
Capítulo 2 — A expedição punitiva de Nabucodonosor contra o Ocidente
No décimo oitavo ano, no vigésimo segundo dia do primeiro mês, correu a notícia no palácio de Nabucodonosor, rei dos assírios, de que ele mesmo havia de vingar-se de todas aquelas nações, como tinha ameaçado.
Convocou todos os seus ministros e oficiais, reuniu o conselho dos generais e deu a conhecer o seu plano secreto, declarando de viva voz a sua intenção de submeter toda aquela terra.
Decidiu, pois, aniquilar todas aquelas nações que se haviam recusado obedecer às suas ordens.
Acabado o conselho, Nabucodonosor, rei dos assírios, chamou Holofernes, general em chefe de seu exército, que vinha logo depois dele, e disse-lhe:
Eis o que diz o grande rei, senhor de toda a terra: Vai, põe-te à frente dos que estão ao meu serviço, toma contigo cento e vinte mil soldados de infantaria e doze mil cavaleiros com os seus cavaleiros,
e marcha contra todo o Ocidente, contra aqueles que desprezaram a ordem que eu lhes dei.
Dize-lhes que preparem a terra e a água, porque, cheio de furor, eu marcharei contra eles e cobrirei toda a superfície da terra com os pés dos meus soldados, que a saquearão.
Os seus feridos encherão os vales e os rios; o cadáveres formam uma inundação que transbordará,
e levarei cativos os seus habitantes até os confins da terra.
Vai, pois, e apodera-te de todos os seus territórios; eles se renderão a ti, e tu os guardarás para o dia do castigo.
Quanto a mim, que sou teu senhor, não desprezarei as suas palavras. Mas, como eu vivo e pelo poder do meu reino, assim o farei.
Não desobedecerás a nenhuma das ordens do teu senhor; pelo contrário, executarás exatamente o que te mandei, sem demora.
Holofernes deixou a presença do seu senhor e convocou todos os chefes e oficiais do exército assírio.
Revisou os soldados escolhidos para a guerra, como lhe havia ordenado o rei, isto é, cento e vinte mil homens de infantaria e doze mil arqueiros a cavalo.
Organizou-os como se organiza um exército para a batalha.
Tomou grande quantidade de camelos, jumentos e mulas para os transportes, e inumeráveis rebanhos de ovelhas, bois e cabras para sua provisão.
Abasteceu abundantemente cada soldado de víveres e de ouro e prata, tirados do tesouro do rei.
Assim, Holofernes pôs-se em marcha com todo o seu exército, precedido pelo rei Nabucodonosor, para cobrir toda a superfície da terra, na direção do Ocidente, com seus carros, cavaleiros e soldados de infantaria escolhidos.
Uma multidão imensa de auxiliares seguia-o como gafanhotos ou como o pó da terra, inumerável.
De Nínive partiram e marcharam três dias na direção da planície de Bectilete, e acamparam perto de Bectilete, sobre o monte que fica à esquerda da alta Cilícia.
Dali, Holofernes tomou todo o seu exército, a infantaria, os cavaleiros e os carros, e penetrou na região montanhosa.
Devastou Put e Lud, saqueou toda a gente de Rassis e os ismaelitas que habitam ao sul do país dos queléus.
Atravessou o Eufrates, passou pela Mesopotâmia e destruiu todas as cidades altas que havia ao longo do ribeirão de Abrona, até chegar ao mar.
Conquistou os territórios da Cilícia, destruiu todos os que lhe resistiram e percorreu as terras de Jafé, na direção do meio-dia, defronte da Arábia.
Cercou os madianitas, incendiou as suas tendas e saqueou os seus rebanhos.
Depois, desceu para a planície de Damasco, por ocasião da colheita do trigo, queimou todas as searas, mandou cortar os vinhedos e os olivais.
O terror apoderou-se de todos os habitantes da costa, de Sidônia e de Tiro, e dos que habitavam em Sur e Ocina, e de todos os que moravam em Jemná. Os habitantes de Azoto e Ascalon tremeram de medo.