O que é o cristianismo?

O que é o cristianismo?
Antes de estudar sua história, precisamos entender o que estamos chamando de “cristianismo”.
Quando alguém diz “cristianismo”, provavelmente você já imagina alguma coisa.
Talvez uma igreja. Talvez uma Bíblia. Talvez Jesus. Talvez uma cruz, uma oração ou uma celebração.
Mas existe um problema: essas coisas, sozinhas, não explicam o que é o cristianismo.
E se você começar a pesquisar sobre o assunto, encontrará rapidamente uma quantidade enorme de tradições, igrejas, doutrinas e interpretações diferentes.
Católicos.
Ortodoxos.
Protestantes.
Anglicanos.
Coptas.
Etíopes.
Armênios.
Igreja do Oriente.
E muitas outras comunidades e denominações.
Então surge uma pergunta bastante razoável:
- Se existem tantas formas diferentes de cristianismo, o que exatamente faz algo ser cristão?
Para responder, precisamos voltar ao começo.
O cristianismo começa com uma pessoa
O nome “cristianismo” está ligado a Cristo.
E “Cristo” não é originalmente um sobrenome de Jesus.
É um título.
A palavra vem do grego Christós, relacionada ao hebraico Mashiach, normalmente traduzido como Messias ou Ungido.
Por isso, quando falamos em Jesus Cristo, estamos falando de:
Jesus, o Cristo.
O cristianismo nasceu em torno daquilo que seus primeiros seguidores afirmavam sobre esse homem.
Mas quem era Jesus?
Essa pergunta será o centro de uma etapa posterior da nossa jornada.
Por enquanto, basta perceber algo fundamental:
o cristianismo não começou como uma ideia abstrata.
Ele surgiu em torno de uma pessoa que viveu em um período específico, em uma região específica e dentro de uma tradição religiosa específica.
Jesus era judeu.
Seus primeiros discípulos eram judeus.
E o movimento que surgiu ao redor dele nasceu dentro do mundo judaico do século I.
Isso será extremamente importante quando começarmos a estudar o contexto anterior ao cristianismo.
O cristianismo não apareceu do nada
É comum imaginar a história mais ou menos assim:
- Antigo Testamento → Jesus → cristianismo.
A sequência é verdadeira em um sentido muito geral, mas deixa de fora séculos de história.
Entre os antigos israelitas e o nascimento de Jesus aconteceram muitas coisas.
Israel passou por diferentes períodos políticos.
Jerusalém foi destruída.
O povo judeu passou pelo exílio.
Impérios se sucederam.
A região esteve sob domínio persa e depois helenístico.
A cultura grega exerceu enorme influência.
A revolta dos Macabeus transformou a história judaica.
Surgiu a dinastia hasmoneia.
Roma entrou na região.
Herodes tornou-se rei.
Jerusalém e o Segundo Templo assumiram uma importância ainda maior.
E diferentes grupos judaicos desenvolveram diferentes maneiras de compreender a Lei, o Templo, a pureza, o futuro de Israel, o governo romano e a ação de Deus na história.
É nesse mundo que Jesus nasceu.
Por isso, estudar o cristianismo exige primeiro conhecer o mundo que o produziu.
Então o cristianismo é uma religião?
Sim, mas essa resposta ainda é pequena demais.
O cristianismo é uma tradição religiosa que se desenvolveu a partir da vida, ensinamentos, morte e daquilo que seus seguidores afirmaram sobre a ressurreição de Jesus.
Mas ele também se tornou uma tradição:
- teológica;
- litúrgica;
- comunitária;
- filosófica;
- cultural;
- histórica;
- textual.
Ao longo dos séculos, cristãos produziram textos, construíram igrejas, desenvolveram formas de culto, formularam doutrinas, organizaram comunidades e discutiram profundamente questões sobre Deus, Jesus, o Espírito Santo, a salvação, a Igreja e as Escrituras.
Isso significa que estudar o cristianismo não é estudar apenas uma crença.
É estudar também uma história humana de aproximadamente dois milênios.
Mas todos os cristãos acreditam nas mesmas coisas?
Não.
E essa é uma das primeiras coisas que precisamos compreender.
Existem diferenças profundas entre tradições cristãs.
Mas também existem elementos que aparecem, de diferentes maneiras, em grande parte do cristianismo histórico.
Entre eles está a crença em:
um Deus criador;
Jesus como Cristo;
as Escrituras como textos fundamentais da fé;
a morte e ressurreição de Jesus como acontecimentos centrais da fé cristã;
a importância do batismo e da comunidade;
a esperança de ressurreição e vida futura.
A maneira como cada tradição entende esses elementos pode variar bastante.
E algumas diferenças são tão importantes que acabaram contribuindo para separações entre comunidades cristãs.
É justamente por isso que, mais adiante, precisaremos estudar a história das controvérsias, dos concílios e das diferentes tradições cristãs.
Mas não devemos começar pelo fim.
Primeiro precisamos entender como chegamos até lá.
Uma palavra importante: Igreja
Hoje, quando ouvimos “igreja”, podemos pensar imediatamente em um prédio.
Uma igreja pode ser um prédio, mas a palavra possui um significado muito mais amplo na história cristã.
O termo grego ekklesía está relacionado a uma assembleia ou reunião.
No cristianismo, passou a ser utilizado para falar da comunidade dos seguidores de Jesus.
Por isso, quando os primeiros cristãos falavam da Igreja, não estavam pensando apenas em uma construção.
Estavam falando de uma comunidade.
Essa distinção será importante quando estudarmos os primeiros séculos do cristianismo.
E a Bíblia?
Aqui aparece outra questão que parece simples, mas não é.
Se perguntarmos:
- “Qual é o livro do cristianismo?”
A resposta provavelmente será:
- A Bíblia.
Mas a Bíblia não é um livro único escrito de uma vez.
É uma coleção de livros produzidos em diferentes épocas, contextos e gêneros literários.
Ela reúne textos que foram escritos, copiados, preservados e transmitidos ao longo de muitos séculos.
E há outra questão ainda mais interessante:
- Todos os cristãos possuem exatamente os mesmos livros na Bíblia?
Não.
As diferentes tradições cristãs possuem diferenças em suas coleções de livros.
É aqui que começamos a chegar a um dos assuntos centrais do Kanon.
Mas precisamos ter cuidado para não saltar imediatamente para a discussão sobre “qual cânon é certo”.
Antes disso, precisamos entender como essas coleções surgiram e como diferentes comunidades cristãs receberam e transmitiram suas Escrituras.
Esse será um dos assuntos da nossa jornada.
Por que existem tantos tipos de cristianismo?
Essa pergunta não possui uma resposta única.
As diferenças entre cristãos surgiram em momentos diferentes e por razões diferentes.
Algumas estão relacionadas a questões teológicas.
Outras envolvem idioma, cultura, política, geografia, autoridade eclesiástica, liturgia ou interpretação das Escrituras.
Algumas separações foram resultado de debates que duraram décadas ou séculos.
Outras aconteceram por acontecimentos políticos ou mudanças históricas.
Por isso, é perigoso contar a história simplesmente como:
- “Um grupo estava certo e o outro estava errado.”
Essa conclusão pode ser parte da convicção religiosa de determinada tradição, mas não substitui a investigação histórica.
Se queremos compreender o que realmente aconteceu, precisamos primeiro reconstruir os acontecimentos.
Depois podemos discutir suas interpretações.
As grandes famílias do cristianismo
Quando estudarmos a história cristã, encontraremos diferentes grandes tradições.
Entre elas estão:
Cristianismo Católico
A tradição que reconhece o bispo de Roma, o papa, como uma autoridade central na Igreja Católica.
Cristianismo Ortodoxo Bizantino
Conjunto de igrejas que preservaram a tradição cristã oriental associada ao Império Bizantino e que não reconhecem a autoridade papal nos moldes católicos.
Igrejas Ortodoxas Orientais
Entre elas estão as tradições copta, siríaca, armênia, etíope, eritreia e malankara.
É aqui que encontramos a Igreja Ortodoxa Tewahedo Etíope, que terá importância especial em nossa jornada.
Igreja do Oriente
Uma tradição cristã oriental com uma história própria, especialmente importante na Mesopotâmia e posteriormente em regiões da Ásia.
Protestantismo
Um conjunto muito amplo de tradições que surgiu principalmente a partir da Reforma do século XVI e que posteriormente se diversificou em inúmeras igrejas e movimentos.
Essas categorias são úteis para começarmos a nos localizar, mas não devemos tratá-las como se fossem blocos completamente uniformes.
Cada uma possui sua própria história interna.
“Então qual delas é o cristianismo verdadeiro?”
Essa é uma pergunta legítima.
Mas é uma pergunta diferente de:
- “Como essas tradições surgiram?”
A primeira envolve teologia, autoridade religiosa e convicções de fé.
A segunda pode ser investigada historicamente.
E essa distinção será uma regra importante em nossa jornada.
Não precisamos decidir tudo antes de conhecer a história.
Primeiro vamos descobrir:
o que aconteceu?
quando aconteceu?
quem estava envolvido?
quais fontes temos?
o que podemos afirmar com segurança?
Depois poderemos compreender melhor as diferentes interpretações.
O cristianismo também é uma história de comunidades
Um dos maiores erros ao estudar o cristianismo antigo é imaginar que existia uma única comunidade cristã perfeitamente uniforme desde o primeiro dia.
A realidade parece ter sido muito mais complexa.
Comunidades cristãs surgiram em diferentes lugares.
Jerusalém.
Antioquia.
Alexandria.
Roma.
Ásia Menor.
Síria.
Mesopotâmia.
Norte da África.
E, posteriormente, muitas outras regiões.
Essas comunidades compartilhavam elementos importantes, mas também viviam em contextos culturais e linguísticos diferentes.
Isso ajuda a explicar por que, ao longo do tempo, encontramos diferentes formas de celebrar, ensinar, interpretar e organizar a vida cristã.
A história do cristianismo é, em grande parte, também a história de como essas comunidades se relacionaram umas com as outras.
E por que isso importa para você?
Talvez você tenha chegado até aqui apenas porque tem curiosidade sobre a Bíblia.
Talvez tenha ouvido falar de Enoque.
Talvez tenha encontrado alguma discussão sobre os concílios.
Talvez tenha visto alguém dizendo que determinada Bíblia possui mais livros que outra.
Talvez tenha ouvido falar da Igreja Etíope.
Ou talvez simplesmente queira entender de onde veio o cristianismo.
Todas essas perguntas estão conectadas.
Não é possível compreender completamente o cânon bíblico sem conhecer a história das comunidades que transmitiram esses textos.
Não é possível compreender os concílios sem conhecer as controvérsias que levaram a eles.
Não é possível compreender as divisões entre cristãos sem conhecer os acontecimentos que as produziram.
E não é possível compreender Jesus adequadamente sem conhecer o mundo judaico no qual ele viveu.
Tudo está conectado.
Uma jornada, não uma coleção de respostas
É por isso que esta série não foi pensada como uma sequência de artigos aleatórios.
Queremos construir um caminho.
Primeiro, aprenderemos como investigar o passado.
Depois, conheceremos o mundo que existia antes de Jesus.
Então estudaremos Jesus e o movimento formado ao seu redor.
Depois acompanharemos os primeiros cristãos e a expansão da Igreja.
Em seguida, entraremos na história da Bíblia, dos manuscritos e dos cânones.
Só então estaremos preparados para compreender as controvérsias e os concílios que marcaram a história cristã.
Depois disso, poderemos acompanhar o desenvolvimento das diferentes tradições cristãs.
E finalmente chegaremos à tradição que é especialmente importante para a Kanon:
o cristianismo etíope Tewahedo e sua tradição bíblica.
Não queremos pedir que você aceite uma conclusão antes de conhecer o caminho que levou até ela.
Queremos que você conheça o caminho.
Então, o que é o cristianismo?
Podemos começar com uma definição simples:
- O cristianismo é a tradição religiosa surgida no século I em torno de Jesus de Nazaré e da fé de seus seguidores de que ele é o Cristo, cuja morte e ressurreição possuem significado central para a relação entre Deus e a humanidade.
Mas essa definição é apenas o começo.
O cristianismo não permaneceu limitado à pequena comunidade que surgiu na Judeia.
Ele atravessou fronteiras, idiomas e impérios.
Chegou a cidades do Mediterrâneo, ao Norte da África, à Síria, à Mesopotâmia e à Etiópia.
Passou por períodos de perseguição e de expansão.
Debateu questões fundamentais sobre Deus e Jesus.
Formou comunidades e tradições diferentes.
Preservou e transmitiu textos.
Realizou concílios.
E atravessou dois milênios de história.
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